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Zelensky prepara eleições presidenciais e referendo ao acordo de paz com a Rússia
Decisão deve-se a pressões de Washington. Se Ucrânia não organizar votações até 15 de maio, garantias de segurança dos Estados Unidos ficam em risco. Se as organizar, os desafios logísticos e de legitimação do resultado são enormes
Publicado em 11/02/2026 11:53
Internacional

O Presidente da Ucrânia está a acelerar diligências para realizar eleições presidenciais e uma consulta popular ao acordo de paz com a Rússia, noticia o jornal britânico “Financial Times”, esta quarta-feira. Kiev tem estado sob forte pressão da Casa Branca para concluir as negociações com Moscovo até à primavera.

“Eles dizem que querem fazer tudo até junho, para a guerra acabar”, afirmou aos jornalistas o chefe de Estado ucraniano, Volodymyr Zelensky. “E querem um calendário claro.” Deixa cair a objeção a convocar eleições com o seu país em conflito armado, com 20% do território ocupado pelos russos, e sob lei marcial.

Zelensky poderá anunciar as suas intenções no quarto aniversário da invasão, a 24 de fevereiro, escreve o diário londrino. O Presidente, cujo gabinete não respondeu ao “Financial Times”, pretenderá recandidatar-se. Um acordo com Moscovo — desde que aceitável para a opinião pública ucraniana, o que só se veria em referendo —, somado às promessas de Washington, ser-lhe-ia vantajoso, até porque já não goza da unanimidade de há uns anos, devido ao arrastar da guerra e a casos de corrupção no seu Governo.

Trump pensa em novembro

Já o Presidente dos Estados Unidos da América (EUA), Donald Trump, tem em mente outras eleições, as de novembro para o Congresso do seu país. E por isso tem pressa, para evitar contaminação. Os americanos vão renovar toda a Câmara dos Representantes e um terço do Senado, e não costumam apreciar gastos fora de portas. Trump é um governante impopular, além de salpicado pelo escândalo sexual de Jeffrey Epstein.

Do lado ucraniano e europeu, e embora Zelensky já tenha afirmado que há acordo com Trump sobre garantias de segurança, questiona-se a viabilidade do plano. O que empurra o ucraniano a aceitar é a ameaça de Trump se fazer cair essas garantias caso o conflito não se resolva até 15 de maio.

Com as atuais linhas vermelhas russas, isso implica cedências territoriais que a Ucrânia se tem negado a ponderar. Em discussão está também o controlo da central nuclear de Zaporíjia, sem consenso entre as partes. A resolução ou não destas questões, e a forma como acontecer, terá influência no comportamento dos votantes ucranianos.

Pesadelo logístico para Kiev

 

As dificuldades logísticas para organizar eleições prenunciam-se enormes, e crescerão se prosseguirem os ataques russos das últimas semanas contra cidades ucranianas e as suas infraestruturas críticas. Com centenas de milhares mobilizados para combater e milhões de cidadãos deslocados, a universalidade do sufrágio não parece fácil de assegurar, o que pode suscitar dúvidas sobre a legitimidade do mesmo.

O presidente da Câmara de Kiev, Vitali Klitschko, teme os efeitos da “competição política durante uma guerra”. E alerta: “Podemos destruir o país a partir de dentro, que é o que a Rússia quer”. Uma especialista ouvida pelo “Financial Times” não crê possível fazer eleições em menos de seis meses. “Não é o tempo máximo, é o mínimo”, frisa Olha Aivazovska, presidente da organização OPORA, versada em assuntos de democracia e eleições. “Nunca houve uma situação assim, é inédito.”

Moscovo tem feito incursões no leste, num esforço por maximizar a sua posição negocial ou, caso a diplomacia falhe, tomar o solo que puder pela força. Sem cessar-fogo até ao dia de uma putativa votação, os russos ficam de mãos livres para perturbar o processo com ataques, sem falar no risco de manipulação digital, em que são useiros e vezeiros.

 

Para cumprir o prazo ditado pela Casa Branca, os próximos meses serão intensos no Parlamento ucraniano. Terá de legislar para levantar a lei marcial ou abrir exceções que possibilitem eleições em tempo de guerra. Uma ida às urnas sem acesso real para todos e com baixa participação seria alvo de contestação, com grande probabilidade, e Vladimir Putin poderia mesmo não reconhecer os resultados caso não lhe fossem favoráveis.

FONTE: Expresso

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